Meus Talismãs Planetários - por Lon Millo Duquette

Traduzido e adaptado de "Low Magick: It's All in Your Head... You Just Have No Idea How Big Your Head Is", escrito por Lon Millo Duquette e publicado pela Llewellyn, 2010.

"Como mago nos últimos trinta e cinco anos (mais ou menos), tenho, por meios tanto convencionais quanto proibidos, me esforçado para provocar mudanças na minha vida em conformidade com aquilo que percebo ser a minha Vontade. Digo ‘percebo ser a minha Vontade’ porque só quando alguém alcança um certo nível de iluminação é que pode, com algum grau de certeza, saber qual é de fato a própria Vontade.

Por favor, não suponha que só porque pratico magia há tanto tempo eu possua uma visão límpida da minha Verdadeira Vontade ou que me considere um mestre iluminado. Não me considero. O que eu realmente possuo, depois de todo esse tempo, é uma boa dose de experiência mágica — e experiência é (ou pelo menos pode ser) o terreno fértil da sabedoria. Naturalmente, essa potencialidade se desfaz se eu não conseguir recordar e avaliar com precisão essas experiências, de modo a aplicar suas lições ao estado presente do meu desenvolvimento mágico. Por isso, acredito ser vital que magos mantenham um registro escrito de suas façanhas. Como mencionei antes, para escrever este livro, mergulhei em caixas empoeiradas e baús de armazenamento para extrair e organizar as crônicas soterradas das minhas aventuras — e desventuras — mágicas.

Para mim, revisar diários mágicos antigos nunca é uma experiência agradável. Sempre que abro e leio um desses meus cadernos ancestrais, fico paralisado por uma mistura nauseante de vergonha e assombro. Ranjo os dentes e me contorço ao reviver os eventos, pensamentos, delírios e presunções daquele jovem raso, autocentrado, ingênuo e cego pelo ego que me encara dos espelhos do passado. Minha única consolação é poder dizer: 'Graças a Deus, não sou mais assim!'

Por mais doloroso que seja, revisar meus registros mágicos me dá a oportunidade de traçar a trajetória geral da minha evolução espiritual. Em vários casos, até consegui identificar o minuto exato em que meus esforços mágicos (bons ou ruins) realmente provocaram mudança em conformidade com a minha Vontade — momentos que alteraram dramaticamente o curso da minha vida e a vida de outros. Aliás, neste exato momento, você está lendo estas palavras como resultado de uma operação mágica que coloquei em movimento há trinta e cinco anos.

Cerca de um ano antes da minha traumática evocação do demônio Orobas, eu estava enredado no que, para ser educado, chamarei de uma crise na minha vida. Eu tinha vinte e seis anos, era casado e tinha um filho de dois anos. Tentava desesperadamente me livrar de uma carreira nada saudável como músico/artista de gravação e buscava trazer alguma estabilidade e direção para minha vida. Alguns anos antes disso, para responder a uma intensa fome espiritual, entrei no mundo iniciático dos mistérios ocidentais — especificamente nos graus da Ordem Rosacruz, AMORC, da Ordem Martinista Tradicional (OMT) e dos Builders of the Adytum (B.O.T.A.).

Por mais fascinantes que fossem meus estudos, eram apenas isso — estudos. Minha vida precisava mudar. Eu não queria apenas estudar magia; queria praticar magia. Mas que tipo de magia? Eu tinha ouvido algumas coisas bem assustadoras sobre os males da magia e estava desesperado por encontrar um ponto de partida seguro.

No começo de janeiro de 1975, numa velha e abafada livraria ocultista em North Long Beach, comprei How to Make and Use Talismans de Israel Regardie. Eu confiava em Regardie, já tendo lido vários de seus textos clássicos de magia. Mas esse livrinho era diferente: era realmente um manual prático de magia. A explicação sensata e direta de Regardie sobre os fundamentos da magia talismânica dissipou instantaneamente minhas dúvidas supersticiosas. A generosidade dele em oferecer tabelas, diagramas e ilustrações (que prontamente copiei e colei no meu diário mágico) fez do livro um verdadeiro tesouro de informações fáceis de usar. Mal podia esperar para passar de estudante a praticante. Depois de lê-lo várias vezes, eu sabia exatamente por onde começar.

Regardie sugere que talismãs planetários podem ajudar a superar aspectos desfavoráveis que possam estar afetando o mapa astrológico de uma pessoa. Isso chamou muito minha atenção. Eu sabia que tinha aspectos difíceis no meu mapa natal, então procurei meu irmão Marc (o astrólogo) para ver que planeta poderia usar uma ajudinha extra. “Todos”, ele me informou friamente. Mas, como a Lua regia meu mapa, ele sugeriu que eu começasse tentando fazer as pazes com ela.

Com o livrinho de Regardie como guia, comecei a reunir símbolos para um talismã lunar em 23 de janeiro. À meia-noite de 27 de janeiro, depois de ungi-lo com gotas de orvalho que tinham se formado sob o luar refletido no meu Chrysler 1952, consagrei-o com toda a cerimônia que fui capaz de inventar.

O meu talismã lunar foi a coisa mais bonita que eu já tinha feito com minhas próprias mãos. Era um modelo de círculo duplo feito de cartolina. Extraí os sigilos do espírito lunar e da inteligência a partir do kamea da Lua no livro e os desenhei cuidadosamente com tinta prateada sobre um fundo de nanquim violeta profundo, na frente e no verso de um dos círculos. No outro círculo, pintei a imagem prateada do deus hindu de cabeça de elefante, Ganesha (a quem a Lua é sagrada), de um lado; e do outro lado desenhei os símbolos planetários e geomânticos correspondentes. Ao redor de uma das bordas escrevi, em hebraico, os nomes divinos e angelicais; e, no verso, parte do Salmo 72: “... abundância de paz enquanto durar a lua.”

Quando terminei, coloquei-o carinhosamente dentro de uma bolsa de linho que eu mesmo havia costurado com linha violeta. Na aba, bordei uma lua crescente prateada.

Eu estava muito orgulhoso de mim mesmo, mas ainda não me sentia grande coisa como mago. Carreguei o talismã comigo por alguns dias e me senti estranhamente fortalecido — mas fortalecido para quê, eu não sabia. Não tinha certeza do que deveria fazer em seguida. A resposta veio (como tantas respostas importantes vêm) enquanto eu tomava banho: eu deveria fazer todos os sete talismãs planetários!

Nos quatro meses seguintes, com a ajuda do livrinho de Regardie e usando minhas habilidades artísticas e mágicas cada vez melhores, criei e consagrei um conjunto completo de sete talismãs planetários. Cada um era mais bonito e mais reverente que o anterior. A ordem em que os criei foi ditada pela gravidade das aflições planetárias no meu mapa natal. Consagrei o talismã de Marte em 6 de fevereiro. Nessa altura já havia aprendido o Ritual Maior do Pentagrama e do Hexagrama, que dali em diante se tornaram parte essencial de meus rituais de consagração de talismãs.

Júpiter veio em 27 de fevereiro (aniversário de Constance), seguido por Vênus exatamente um mês depois. O talismã de Vênus evocou as reações mais notáveis: meus sonhos ficaram cheios de encontros eróticos vívidos, como não acontecia desde a adolescência. Isso durou até 4 de abril, quando consagrei meu talismã de Mercúrio — e aí meus sonhos se tornaram ansiosos e confusos. (Paciência!)

Comecei o talismã de Saturno em 10 de maio e o consagrei à meia-noite do dia 13. No dia seguinte, comecei a reunir os símbolos para meu sétimo e último talismã planetário. O do Sol levou dez dias para ficar pronto e eu o consagrei durante um eclipse lunar em 24 de maio. Meu arsenal de talismãs planetários estava finalmente completo.

Durante todo esse período de fabricação de talismãs — e nos meses que se seguiram — a vida na casa dos DuQuette continuava sendo uma ladainha de caos, frustração e desespero. Numa tentativa de ganhar dinheiro sem que envolvesse cantar em bares, aceitei um trabalho de pintura de casas e nos mudamos para o Vale de San Gabriel. Como acabou acontecendo, nunca recebi pagamento pelo meu (admitidamente inepto) trabalho e ficamos abandonados em La Verne, a cidade mais poluída do sul da Califórnia, sem emprego e sem dinheiro.

O dia 11 de julho amanheceu com a perspectiva de ser pior aniversário da minha vida. Por volta das 11h15 da manhã, tranquei-me no meu quarto-templo. Acendi uma vela e a coloquei no altar. Fiz sem entusiasmo os Rituais de Banimento do Pentagrama e do Hexagrama e tentei meditar. Não consegui. Para me animar, tirei meus talismãs do saquinho e me detive em cada detalhe de sua beleza. Enquanto os girava nos dedos, sussurrava as palavras de poder e os nomes dos deuses, anjos e espíritos inscritos em cada um deles. Finalmente, como que para trazer ordem ao meu universo caótico, coloquei o talismã do Sol no centro do altar e o cerquei com os outros seis planetas em suas devidas posições no hexagrama. Eram tão lindos — tão perfeitos.

Por um momento, não soube o que sentir. Eu oscilava entre deprimido e exultante; deprimido porque aqueles talismãs eram as únicas coisas perfeitas na minha vida, e exultante porque pelo menos algo era perfeito. Olhei para o relógio: quase meio-dia, hora de voltar para a cozinha e comer bolo de aniversário com Constance e o pequeno Jean-Paul. Os dois riam juntos, e as risadinhas deles me fizeram rir também. Então, num momento de clichê absoluto — uma epifania digna de um filme de Frank Capra — percebi que havia muitas coisas perfeitas na minha vida. Naquele instante, eu era o homem mais sortudo da Terra.

Minha melancolia se dissipou. Creditei a mudança de humor aos talismãs. Mas, ao contemplá-los sobre o altar, percebi que nunca seriam mais belos ou significativos do que eram naquele momento. Em poucas semanas, suas cores começariam a desbotar, as tintas a rachar, as bordas a se desgastar. Em alguns anos, provavelmente perderia alguns deles, e os que restassem se reduziriam a frágeis pedaços de cartolina quebradiça. Eu desejava poder preservá-los para sempre assim — no auge de sua força — num ambiente eterno onde sua beleza nunca fosse apagada e seu poder nunca diminuísse.

Esses talismãs não serviam de nada sentados no altar ou guardados em saquinhos estéreis. Eles precisavam literalmente se tornar parte de mim. Não! Mais que isso: eu devia usar sua magia para me tornar outra pessoa — alguém novo. Eu precisava reabsorver meus preciosos filhos planetários e plantá-los no útero da minha própria alma. Precisava me engravidar com sua potência mágica e, assim, gerar em mim mesmo um novo eu.

Um por um, alegremente, mergulhei os sete talismãs no fogo sagrado da chama da vela do altar. Inspirei sua luz e calor enquanto as frágeis cascas de papel e tinta se reduziam a pura cinza branca.

Era meio-dia, 11 de julho de 1975 — o primeiro momento da minha vida como mago."




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