A Permissão Divina de Mudar.

"Apenas aqueles que percebem que possuem uma personalidade,
e não consistem de uma personalidade, são capazes de modifica-la."
- Peter J. Carroll, LIBER KAOS

Olhar, em retrospectiva, para um ano atrás é um processo de, inerentemente, encontrar mudança. Costumamos fazer isso em nossos "anos novos", sejam de fato os Réveillons, celebrados pela sociedade como um todo, ou aqueles mais pessoais, como aniversários e datas que, de alguma forma, são significativas. A minha data-gatilho tem sido minha iminente celebração de Samhain no momento em que escrevo esse texto.

Muito mudou. Em especial, e mais importantemente, é claro, eu próprio. E, apesar de ter encorajado um exercício de independência de figuras espirituais e divinas em um outro post, no que eu considero que seja um movimento propício para abordar o tema, neste eu gostaria de usar como força-motriz as reflexões que tenho tido acerca de duas divindades de muita importância para mim: Xangô e Apollo.

A importância do Rei dos Trovões, na minha vida, se dá no fato dele ter sido apontado, mais de uma vez, como meu Orixá, no jogo de búzios. É curioso, no entanto, o fato de que, apenas por convivência, contato ou, às vezes, até mesmo um mero olhar, muitos já foram aqueles que, prontamente, afirmaram: "Você é de Xangô". Hoje, no entanto, eu coleto alguns momentos em que, na realidade, meu teste de DNA Divino (realizado por outros, isso é importante) tem seu resultado negativo.

Há muito debate dentro das religiões de matriz-afro acerca de "mudança de cabeça", disputas de Orixás por uma mesma pessoa e mais uma série de outras coisas que poderiam ser levantadas para se explicar um certo caráter dúbio se tratando de apontar a divindade-regente de alguém, suas características e, bom... O ponto central, no fim das contas, é que muito dessa observação dos indivíduos, talvez, deixe de levar em conta o simples fato de que, enquanto seres humanos, mudamos. E somos muito mais complexos do que uma lista de características!

Olhando mais distante do que há apenas um ano, eu não consigo deixar de lembrar o quanto, no início de meu caminho, eu aspirava por descobrir estas minhas "regências". Meu elemento, minha divindade, meu planeta, minha planta, minha, meu, meu, minha... Como o trabalho com espíritos, de forma alguma eu nego o valor que certas explorações e afinidades descobertas possuem. Por outro lado, hoje, eu acho que isto, muitas vezes, deveria ser tido muito mais como um feliz acaso do que algo sobre o qual se empenhar.

Talvez haja muito mais valor no labor para se tornar aquilo que se gostaria, dentro de possibilidades reais, do que um suposto autoconhecimento derivado deste trabalho. Ele próprio é, afinal, também, recheado de possibilidade para se autoentender. Se você se sente desconfortável com alguma característica sua, de onde vem esse desconforto? Por que você se sente assim? Você quer realmente mudar? Você pode sustentar sua mudança? Hoje, eu acredito que bons magistas verdadeiramente apreciam tanto um bom trabalho em setting analítico quanto topando com suas supostas correspondências.

Uma das mudanças do qual eu me orgulho, ao longo deste anos, por exemplo, é ter desenvolvido muito mais curiosidade e respeito por questões históricas. Como o fato de Apollo ser, originalmente, patrono "apenas" da arte, música, profecia, inspiração e tantas outras coisas que não se ligavam, necessariamente, ao Sol. Por mais que minha mente racional gostasse de seguir nesta perspectiva, é inegável, no entanto, a gnose pessoal compartilhada entre diversos de nós, devotos, ao longo destes milênios, de que sim, houve uma incorporação destes aspectos solares em si pelo deus. E afinal, se até mesmo os Deuses, eternos, mudam, por que não nós? Se até mesmo os Deuses mudam, não deveríamos também nós?

"Só o que está morto não muda!"


Feliz Samhain!

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