Inicação Caseira - por Lon Milo DuQuette
Traduzido e adaptado de "Homemade Magick: The Musings & Mischief of a Do-It-Yourself
Magus", escrito por Lon Millo Duquette e publicado pela Llewellyn, 2014.
Em todos os sistemas religiosos, encontramos um sistema de Iniciação,
que pode ser definido como o processo pelo qual um homem
vem a conhecer aquela Coroa desconhecida.
— Aleister Crowley, Liber LXI vel Causae
Eu não sabia exatamente o que esperar quando enviei minha ficha de inscrição e o dinheiro para a Ordem Rosacruz (AMORC), lá em 1971, mas eu estava elétrico com a ideia de me tornar membro de uma sociedade oculta de verdade, com estudantes e adeptos genuínos. Meu irmão, Marc, havia entrado na organização (que anunciava em revistas como Fate e Popular Mechanics) alguns meses antes e tinha compartilhado algumas de suas experiências. Eu sabia que estava me inscrevendo para um curso por correspondência — uma série contínua de monografias que ensinavam princípios e exercícios ocultistas antigos. Eu sabia que deveria estudar fielmente essas monografias todas as noites de quinta-feira, na privacidade do meu “templo” doméstico. Também sabia que minhas sessões de estudo envolveriam certa dose de cerimônia: acender velas, queimar incenso, cantar, meditar — exatamente o tipo de coisa sombria e misteriosa que um místico iniciante de olhos arregalados de vinte e quatro anos, como Lon Milo DuQuette, estava procurando!
Minha primeira monografia chegou de modo nada cerimonioso pelo correio numa quinta-feira — uma sincronicidade cósmica que só podia ser interpretada como uma mensagem direta dos deuses. Esperei nervosamente o sol se pôr para abrir o envelope e deixar a magia começar. Depois do jantar, tomei banho e vesti meu karate gi (a coisa mais próxima que eu tinha de vestes mágicas). Constance, grávida do nosso bebê que iria chegar em breve e ainda sem nome, concordou em se ocupar na cozinha e na sala enquanto eu me trancava no quarto com minhas velas, meu incenso e minha primeira monografia mística. Abri o envelope, cheirei o conteúdo (sim, eu cheirei o conteúdo), li as palavras introdutórias e percebi que estava prestes a passar, ali mesmo, por uma cerimônia de iniciação.
Quando eu era criança, no ginásio, a palavra iniciação era uma palavra assustadora. Iniciação significava bullying institucionalizado e tormento infligido por alunos mais velhos sobre calouros ingênuos e aterrorizados. Iniciação em uma escola do Meio-Oeste significava ter suas calças arrancadas e hasteadas no mastro da bandeira, ou descobrir (tarde demais) que alguém tinha jogado pó de mico no seu suspensório atlético.
Claro que existem outros tipos de iniciação, mais inofensivos, mas o mínimo que a palavra implicava era uma taxa preliminar — uma “penalidade” — que você precisava pagar antes de presumir fazer parte de uma organização.
Iniciar, como verbo, significa “começar”. Iniciação é simplesmente um começo. Uma iniciação mágica marca o início de uma mudança — uma mutação — um passo evolutivo na vida do magista que, se tudo correr bem, sairá da câmara iniciática uma pessoa diferente daquela que entrou às cegas. A evolução espiritual é uma série desses começos. O magista reconhece formalmente o início de cada nova fase à medida que cresce, passo a passo, grau após grau, em sabedoria e entendimento.
Sociedades iniciáticas formais eram bastante populares no Egito antigo, na Grécia e em várias outras culturas mediterrâneas e asiáticas. Os ritos de iniciação ofereciam uma experiência espiritual mais inteligente, elitista e esotérica do que as religiões mais cruas e supersticiosas das massas. Provavelmente, a mais bem-sucedida dessas sociedades antigas estava centrada na cidade grega de Eleusis. Os Mistérios de Eleusis celebravam os mistérios agrícolas da deusa Deméter e de sua filha Perséfone por quase dois mil anos.
Os Mistérios Eleusinos se desenvolveram a partir dos mais antigos cultos agrícolas micênicos e dos ritos egípcios de Ísis e Osíris. O texto arquetípico que estabeleceu o padrão e a fórmula para muitas sociedades iniciáticas foi o Livro Egípcio dos Mortos, um texto mágico que, à primeira vista, orienta o recém-falecido sobre como navegar os obstáculos e desafios da vida após a morte nos instantes eternos do coma da morte. Ao fazer isso, o Livro dos Mortos também revela a fórmula mágica do processo graduado de expansão da consciência autoinduzida — a fórmula da iniciação por graus.
Especulação sobre o que realmente acontecia durante as antigas cerimônias iniciáticas enche as páginas de muitos livros ocultistas (alguns bons, outros risivelmente ruins). Curiosamente, o próprio processo de especulação já é uma experiência iniciática vicária, pois para sequer contemplar a dinâmica de uma iniciação, é preciso colocar-se simultaneamente no lugar do candidato e do iniciador.
Para seu crédito, as pequenas cerimônias de auto-iniciação do curso por correspondência da AMORC eram habilmente elaboradas e apresentadas de tal maneira que, se o candidato fosse sincero e aberto ao momento, um grau de verdadeira iniciação podia acontecer. Não posso falar por mais ninguém, mas posso dizer, sem evasão, ambiguidade ou reserva, que naquela noite de quinta-feira em 1971 eu estava profundamente sincero e aberto ao momento.
Permiti que as palavras impressas da monografia me transportassem ao meu próprio templo interior de iniciação. Lá, encontrei meu eu mágico pela primeira vez. Lá, jurei com cada fibra do meu ser descobrir os poderes da minha própria alma e usá-los para alcançar a iluminação e a libertação espiritual para o benefício de mim mesmo e de cada mônada da existência. Eu estava pronto para aquele momento. Tudo que eu precisava era de um empurrãozinho — uma ajudinha e um pouco de incentivo daquelas poucas palavras. A monografia pode ter me dado o empurrão, mas a iniciação em si foi inteiramente minha — uma iniciação caseira.
Nos quarenta e tantos anos desde aquela noite tranquila, fui candidato em muitas cerimônias de iniciação. Algumas exigiram talentos dramáticos e mágicos de muitos oficiais e ocorreram em templos históricos ricamente adornados de ouro e mármore. Outras aconteceram em modestas salas de loja com apenas um punhado de oficiais. Algumas ocorreram sob as estrelas, ou em garagens convertidas e salas de estar residenciais. Em várias de minhas iniciações, o oficial presidente estava visivelmente embriagado e os oficiais assistentes liam suas falas de roteiros que viam pela primeira vez. Não importavam as circunstâncias — eu considerava todas verdadeiras iniciações.
Você provavelmente está se perguntando: como alguém pode considerar uma cerimônia conduzida por um “mestre” bêbado e assistentes despreparados como uma iniciação verdadeira e espiritual?
Minha resposta é simples: porque todas as verdadeiras iniciações são auto-iniciações.
Não importa o quão simples ou elaborada seja a cerimônia, nem o quão habilidosos ou competentes sejam os oficiais — a iniciação em si acontece no templo da sua própria alma. Sua “ficha de inscrição” é sua sinceridade, e sua “taxa de iniciação” é seu desejo e capacidade de estar aberto ao momento.
Minha pequena iniciação da monografia AMORC foi uma iniciação real. Não poderia ter sido mais real, mais eficaz, ou mais mágica se eu estivesse deitado no sarcófago da Câmara do Rei na Grande Pirâmide de Gizé, com Lao Tsé, Buda, Pitágoras, S. L. MacGregor Mathers, Aleister Crowley, Mark Twain e o Dalai Lama como oficiais presidentes.
Todas as cerimônias iniciáticas pelas quais passei desde então foram apenas emendas, “doses de reforço” daquela primeira iniciação caseira no templo do meu quarto, naquela quinta-feira distante.
E você? Está se sentindo sincero e aberto ao momento? Chegou a uma estação da sua vida em que tudo que falta é um empurrãozinho para te jogar na parte funda da piscina da magia caseira? Se sua resposta é sim, então você acabou de se inscrever e ser aceito pelos hierofantes ocultos da Antiga e Mística Ordem dos Magos Caseiros (A.A.M.O.O.H.M.).
Você já pode abrir sua monografia de iniciação.


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